1     A classificação dos exercícios de treino

 

José Bragada  -     ESEB – Instituto Politécnico de Bragança

Artigo publicado na Rev. Treino Desportivo. Edição do CEFD, nº 10 de Julho de 2000 p: 18-26

Disciplinas de

Teoria e Metodologia do Treino Desportivo  ano – Variante de Educação Física

Pedagogia e Treino desportivo – 3º Variante Gestão e Lazer

 

 

A tentativa de classificação dos exercícios de treino, de uma forma abrangente, tem sido feita por vários autores, de entre os quais podemos salientar alguns dos mais importantes, como Bompa (1994), Manno  (1990), Verjoshanski (1990), Platonov (1987), Matvéiv. (1986), Weineck (1986;  e 1998). Assim, encontramos uma grande variedade de classificações (quadro 1), com alguns pontos em comum mas, também, com características diferentes. Na prática, para os treinadores e atletas, resulta alguma confusão e dificuldade na comunicação, neste domínio. Isto é, há alguma dificuldade de entendimento de conceitos que deveriam ser mais uniformes, dada a necessidade da sua utilização no dia a dia.

QUADRO 1: Classificação dos exercícios, de acordo com diferentes autores.

Autor

Critério

Classificação

Caracterização

 

 

 

 

 

 

Bompa (1994)

 

 

 

 

 

 

Estrutura e forma do exercício

 

Desenvolvimento físico geral

1.1 Exercícios sem cargas adicionais (calisthenics) – de acção indirecta.

Exercícios baseados em jogos relacionados com a modalidade

 

Específicos de desenvolvimento de capacidades biomotoras (exercícios de acção directa)

 

 

 

Exercícios seleccionados de determinado desporto

 

Preparação física geral: condicional e coordenativa

 

 

 

 

 

Desenvolvimento e preparação específica e aprendizagem de habilidades técnicas específicas da modalidade

 

Elementos e variantes de tarefas específicas da modalidade (ou simulação da competição ou de algumas componentes)

 

 

Verjo-shanski (1990)

 

Especificidade do exercício e potencial de treino (semelhança  externa; tipo de contracção muscular; mecanismos de produção de energia)

 

 

Preparação geral condicional

 

 

 

Preparação condicional específica

 

Formação física geral (multilateral) e para activação dos processos de recuperação

 

 

Aumento do nível de capacidade específica do organismo

 

 

 

 

Wei-neck (1986 e 1988)

 

 

 

 

 

 

Finalidade

Economia

Eficácia

 

Desenvolvimento geral

 

 

 

 

 

Exercícios especiais

 

Exercícios de competição

 

Bases para a especialização progressiva [melhoria das capacidades (e habilidades) técnicas e tácticas; e factores psicológicos]

 

Construídos a partir dos anteriores (melhoria do rendimento)

 

Complexos, em relação directa com a modalidade) (afinação da totalidade do rendimento desportivo)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Matvéiv (1986)

 

 

 

 

 

 

 

 

Semelhança com modalidade (competição)

 

Competitivos

Propriamente ditos

Formas de treino de exerc. Competitivos

 

 

 

Preparação especial

 

 

 

 

 

Preliminares

 

De desenvolvimento

 

 

Preparação geral

 

Acções completas (combinadas e/ou complexas)

Condições reais da competição

Simulação da competição ou de acções da competição

 

Elementos das acções competitivas, suas variantes e acções semelhantes na forma e capacidades solicitadas.

Criação de pré-requisitos do domínio da técnica.

Domínio das gestos técnicos.

Desenvolvimento das capacidades físicas

 

Preparação geral (multilateral) do atleta;

Formação de aptidões de suporte e auxiliares do rendimento

Meio de educação de capacidades

Factor de repouso activo

 

 

O factor mais importante, que está na base das diferentes classificações, reporta-se ao critério que lhe serve de referência. Por exemplo, para Bompa (1994) foi a “estrutura e forma do exercício”; para Manno (1990) foi a “afinidade” do exercício com a modalidade; para Verjoshanski (1990) a “especificidade do exercício”, etc (ver quadro 1).

Tendo em conta que a preparação do atleta resulta da integração de três grandes componentes: condicional, técnica e táctica, verificamos que, na maioria das classificações referidas, essas três componentes não estão precisamente clarificadas.  Desta forma uma classificação para estar de acordo com a realidade do treino tem, obrigatoriamente de contemplar essas três categorias.

De entre os diferentes critérios, a “semelhança com a modalidade (competição)” está praticamente sempre explícita ou implícita, o que nos pode levar já a concluir que, um determinado exercício, pode ser classificado de forma diferente, conforme seja praticado por atletas de uma ou de outra modalidade.

 

QUADRO 2: Classificação dos exercícios de treino (adaptada de: Bompa (1994), Manno (1990), Verjoshanski (1990), Platonov (1987), Matvéiv. (1986), Weineck (1986;e 1988).

 

Critérios de referência

Classificação

Características

 

Exercício específico da competiçäo

________________

 

Forma interna: características particulares do sistema neuromuscular e metabólico

 

A forma externa: sequência dos movimentos

 

 

 

Competi-tivos

__________

 

 

 

Específicos

 

 

 

 

 

Dirigidos

 

 

 

Gerais

 

 

Prática da competição em condições reais ou simuladas.

_______________________________________

 

Forma externa muito similares à sequência de movimentos competitivos, mas que apresentam desvios nas características da carga e/ou apenas abordam alguns elementos ou combinações complexas da competição. Podem privilegiar aspectos condicionais, coordenativos ou tácticos

 

Solicitam os grupos musculares responsáveis pelo rendimento competitivo, e/ou as capacidades coordenativas que lhe estão na base.

 

Todos os restantes não compreendidos nas situações anteriores – Forma interna e externa significativamente diferente da competição.

 

Assim, por exemplo, o exercício de treino: “Multi-saltos ao pé-coxinho”, pode ser classificado como exercício específico para um atleta saltador de triplo;  e exercício dirigido, se for efectuado por um praticante de voleibol. No primeiro caso, porque privilegia aspectos condicionais e coordenativos, integrantes do triplo salto, e a forma externa do movimento é idêntica a uma parcela da competição. No segundo caso, pode ser considerado um exercício dirigido, para o voleibolista, pois apenas solicita alguns dos grupos musculares importantes no rendimento competitivo.

A classificação de exercícios pode ser relativamente simples quando nos referimos a tarefas simples unitárias mas, é progressivamente complexa e difícil, à medida que os exercícios são compostos por elementos encadeados entre si. Por outro lado, há exercícios que se situam em posição de fronteira (Matveiev, 1986), isto é a sua classificação pode ser justificada de uma forma ou de outra.

Numa tentativa de uniformização, tentámos adaptar estas classificações já existentes, no sentido de, ao mesmo tempo, elaborar uma classificação simples, de fácil compreensão e aplicabilidade em todas as modalidades desportivas, e que tenha em conta as três componentes do treino: condicional, técnica e táctica. (ver quadro 2). Desta forma, pretendemos uma classificação racional e funcional, na qual os exercícios se associam aos fins e objectivos do treino, no contexto que realmente os justifica – o da respectiva modalidade.

 

 

B i b l i o g r a f i a :

 

Bompa, (1994): Theory and methodology of training.  Kendall/Hunt Publishing Company, Dubuque, Iowa.

Manno R. (1990): Fundamentos de enrenamiento deportivo. Paidotribo

Matvéiv L.P. (1986): Fundamentos do treino desportivo. Livros Horizonte

Platonov VN (1987): El entrenamiento deportivo - Teoria e metodologia. Paidotribo.

Weineck JW (1988): Entrenamiento óptimo. Ed Hispano Europea

Weinwck JW (1986) Manual de treinamiento deportivo. Editora Manole

Verjoshanski IV (1990): Entrenamiento deportivo - Planificación y programación. Ed Martines Roca